“Os Pais gregos […] veem [a salvação] como redenção da morte e da corruptibilidade e como cura da natureza humana.”
E agora?
Diante de Deus, somos réus a perdoar ou doentes a curar?
“Ocidente”, aqui, é sobretudo o protestantismo evangélico de raiz agostiniana e reformada (batistas, presbiterianos).
Primeiro vêm as diferenças de conceito, depois o impacto na prática.
São ênfases de tradição, não regras absolutas: há muita variação entre igrejas e teólogos.
Na tradição reformada soma-se a “depravação total”. É o alvo da crítica de Sacks: “para o cristianismo, ele é corrupto, manchado por um pecado original que só a graça salvadora de Deus pode remover”.
Agostinho desenvolveu a culpa herdada numa teoria aceita no Ocidente.
Do lado oriental, Cirilo de Alexandria (c. 376–444, Pai grego): “todos foram feitos pecadores, não como cotransgressores de Adão, mas, sendo de sua natureza, caíram sob a lei do pecado”.
O judaísmo não tem a ideia de culpa herdada nem de dívida a pagar: o homem tem uma inclinação ao mal (yetzer hará), mas continua livre para escolher, e a resposta ao pecado é a teshuvá, o retorno a Deus.
A crítica de Sacks mira o cristianismo em geral, mas o que ela descreve é sobretudo a leitura agostiniana e a “depravação total” reformada; nesse ponto, os judeus estão mais perto dos Pais gregos, que também não falam em culpa herdada nem em dívida. A diferença continua: para os Pais, a cura vem em Cristo, que o judaísmo não reconhece como manifestação da graça.
Para Romanides, no Ocidente a salvação é antes de tudo da ira divina, e o fim da morte decorre da satisfação da justiça.
Para os Pais, Deus não é a causa da morte; Cristo se fez homem para destruir quem tem o poder da morte.
A diferença está na moldura: no Ocidente, a justiça de Cristo é “imputada” num ato e a transformação vem depois; para os ortodoxos, salvação é a própria união e cura, sem essa divisão.
O batismo, para eles, não apenas simboliza: une de fato à morte e à ressurreição de Cristo (Rm 6,3-5), e a pessoa passa a participar da natureza humana já curada nEle. Com a crisma, logo em seguida, recebe o Espírito.
Ponte com outra linha, “Descarte ou renovação” (ainda não publicada): se a salvação é tornar-se semelhante a Cristo, não se trata de “mais salvo a cada dia”, como uma conta que enche, mas de uma relação que se aprofunda; andar contra a cura é afastar-se da própria salvação, sem um interruptor salvo/não salvo. No fim, todos encontram a mesma luz de Deus, alegria para quem se abriu e tormento para quem se fechou. A pergunta deixa de ser “entrar ou não no céu” e passa a ser “o que estou me tornando diante dessa luz”.
Sobre as quedas: para os ortodoxos, elas são esperadas e não desfazem a salvação; o caminho é o arrependimento e a confissão, sempre disponíveis. Imagem: um casamento começa num dia, mas amadurece, pode ser ferido e restaurado. “Caímos e levantamos, caímos e levantamos” (Padres do Deserto).
Entre protestantes, o tema varia: reformados falam em perseverança dos santos; arminianos admitem que se pode cair da graça. Os ortodoxos falam menos em certeza e mais em esperança e confiança na fidelidade de Deus.
Evangélicos leem os três tempos como justificação (passado, ato jurídico concluído e decisivo), santificação (presente, consequência) e glorificação (futuro).
Para os ortodoxos, os três são um mesmo processo de união e cura, sem um momento jurídico à parte. O batismo une de fato à morte e à ressurreição de Cristo (Rm 6,3-5).
Romanides pergunta se o amor de Deus por este mundo desce como coisa criada, a “graça criada”, porque um amor real faria Deus depender do mundo. A resposta ortodoxa é a distinção entre essência e energias, desenvolvida na linha “O desejo e a salvação” (ainda não publicada).
Para aprofundar: a linha “Graça criada ou incriada” (ainda não publicada) trata do conceito e da diferença.
Monergismo: os reformados ensinam que só Deus age na regeneração.
Sinergia não quer dizer que o homem inicia o processo, nem que cada parte faz metade: a graça sempre vem antes, e em Cristo a cura já foi aberta a todos.
Imagem do prisma: o prisma não produz a luz, apenas não a bloqueia e a deixa passar; e a luz, que é uma só, sai em cores próprias em cada prisma, ou seja, a graça não apaga a pessoa, revela-a. Um prisma sujo ou virado para o outro lado a bloqueia. .
A imagem é próxima de Basílio de Cesareia: os corpos límpidos e transparentes, tocados pelo raio de sol, tornam-se eles mesmos brilhantes e irradiam luz; assim as almas que portam o Espírito tornam-se espirituais e enviam a graça aos outros.
Resumo: todos afirmam a primazia de Deus; o que os separa é o estado da vontade caída e se a graça pode ser recusada.
Os reformados, seguindo Agostinho, veem o homem caído como morto, não apenas doente (Ef 2,1); por isso a regeneração precede a fé e é obra só de Deus (monergismo), e a graça dos eleitos é irresistível.
Os arminianos e wesleyanos (Armínio, Wesley) também dizem que, sozinho, o homem não pode voltar-se a Deus, mas uma “graça preveniente” (que vem antes) é dada a todos e devolve a capacidade de responder; essa graça pode ser resistida, o que os aproxima dos Pais.
O ponto delicado é que sinergia não quer dizer que o homem inicia o processo, nem que cada parte faz metade. Para os Pais, a graça sempre vem primeiro: em Cristo a cura já foi aberta a todos, e a luz já está incidindo (imagem do prisma↩).
Para os ortodoxos, a natureza está ferida, não morta: a imagem de Deus foi obscurecida, não destruída, e a vontade continua livre para acolher ou recusar a graça que vem antes.
Batismo ortodoxo: Rm 6,3-5. Ele une de fato à morte e à ressurreição de Cristo (Ato ou processo?↩).
Eucaristia: pela invocação do Espírito (epíclese), pão e vinho tornam-se de fato Corpo e Sangue de Cristo; quem comunga recebe a humanidade já curada dEle. “Remédio da imortalidade” é de Inácio de Antioquia (séc. II).
Os ortodoxos afirmam a realidade sem defini-la filosoficamente (diferente da transubstanciação católica).
São ênfases de tradição, não regras.
Na moldura terapêutica, o desejo não é sufocado: é curado e redirecionado para Deus; a saída da carência é ser preenchido, não vencer no braço.
O risco do lado oriental (ascese como mérito) é justamente o que Romanides descarta: a ascese não é expiatória diante de Deus. O risco existe na prática, mas a resposta de Romanides é que a ascese não compra nada de Deus: é o meio de vencer o diabo e libertar o amor do egoísmo.
Ele critica o luterano Nygren, que acerta o alvo (o amor que “não procura o seu próprio interesse”, 1Cor 13,5), mas, por crer na salvação só pela fé, ignora o papel da ascese; e pergunta: “Como pode o homem libertar-se do egoísmo senão pela fé, pela graça e pela ascese?”.
O que parece “oriental” é, na verdade, herança comum dos Pais, que também aparece em teólogos protestantes. Há ainda a leitura finlandesa mais participativa de Lutero.
A crítica protestante aos ortodoxos é diluir a segurança do perdão e dar peso demais ao esforço humano. A defesa da moldura jurídica é que ela está na Escritura (Rm 3–5), protege a gratuidade (nada a merecer) e a certeza do perdão liberta para amar.
Gustaf Aulén (luterano) recuperou a leitura de Cristo vitorioso.
N. T. Wright (anglicano) lê 1Ts 4 como ir ao encontro de Cristo, não fuga do mundo.
Romanos 5,12 é o texto central da moldura jurídica, e a diferença nasce de uma tradução. O grego diz “assim a morte passou a todos os homens, eph’ hō (ἐφ’ ᾧ) todos pecaram”.
A Vulgata latina traduziu “in quo omnes peccaverunt”, “em quem todos pecaram”, e Agostinho leu “em quem” como “em Adão”: todos pecaram nele e herdam a sua culpa.
Mas hō pode ser neutro e não se referir a Adão: a maioria dos tradutores modernos lê “porque todos pecaram”, e Romanides o refere à morte, “por causa da qual todos pecaram”. Então não herdamos a culpa de Adão, herdamos a morte e a corruptibilidade, e é a morte, com o medo dela, que leva cada um a pecar (Hb 2,14-15).
Por isso Cirilo diz que fomos feitos pecadores “não como cotransgressores de Adão” (Culpa ou doença?↩).
No Ocidente, a transformação vem como resposta ao perdão declarado; no Oriente, ela é a própria salvação: a natureza é curada em Cristo e a pessoa participa dessa cura pela graça, cooperando com ela.
Os dois caminhos miram o mesmo alvo, o amor desinteressado, tema da linha “O desejo e a salvação” (ainda não publicada).
E o contraste: no Ocidente, salvação significa antes de tudo salvação da ira divina, e não da morte e da corruptibilidade (Pagamento ou vitória?↩).
Cor = moldura.Azul é o juiz (Ocidente, à esquerda). Ouro é o médico (Pais gregos, à direita).
Sublinhado pontilhado abre uma nota, no texto ou no título. ↩ leva a um slide relacionado, com caminho de volta.